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Novo “Black Mirror” é sinal de tempos difíceis para a ficção científica

A fartura de produções para o streaming não implica um reflorescimento do gênero – ao contrário, está minando a qualidade das ideias e da execução

18/06/2019 14h34
Por: Redação
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Nos anos 50 e 60, entrando pelos 70, a ficção científica brotou como deserto depois da chuva, resultado da sensação de um mundo em mudança vertiginosa e também em perigo constante; foi a era da reorganização geopolítica do fim da II Guerra, da ameaça atômica e dos avanços estratosféricos na ciência (literalmente estratosféricos, aliás, já que a corrida espacial foi um componente marcante do espírito do tempo). O dinheiro só influenciou esse florescimento do jeito de sempre no cinema: gaste-se muito ou gaste-se pouco, espera-se um retorno proporcional. De forma que, entre os muitos clássicos de primeira grandeza desse período (e são muitos mesmo), temos produções às vezes bem modestas (como O Dia em que a Terra Parou ou O Planeta Proibido), de médio padrão (O Enigma de AndrômedaO Último Homem da TerraNo Mundo de 2020), caras (O Planeta dos Macacos) ou caríssimas (2001 – Uma Odisseia no Espaço). A lista toda ocuparia vários posts – ainda mais porque também na televisão a ficção científica prosperou lindamente, com Além da ImaginaçãoJornada nas EstrelasPerdidos no Espaço etc. etc. etc. Pois também neste momento quantidade é o que não falta na ficção científica e/ou especulativa: o streaming vem soterrando o espectador com lançamentos quase que a cada nova semana. Em questão de qualidade, porém, a coisa está feia. Arrisco dizer que, das produções da Netflix (as mais numerosas), só Stranger Things vai sobreviver ao teste do tempo – pelo menos a primeira temporada. Perdidos no Espaço saiu bonitinho, mas Dark tem mais furos que uma peneira, e The Rain é não só boba, como sem graça. Em geral, é tudo descartável e destinado ao esquecimento. Pode até divertir ou intrigar na hora, mas não resiste a uma revisão. É uma crise tão palpável que atingiu até o maior ícone que o gênero produziu nos últimos anos: Black Mirror.

Cada um há de ter seu episódio favorito entre os três desta nova leva. O meu é Rachel, Jack and Ashley Too, aquele com Miley Cyrus, porque para mim é o que melhor preserva os dilemas éticos e filosóficos da série. Talvez você prefira aquele do sexo virtual, ou então o do sujeito que põe a culpa de uma tragédia nas redes sociais (Andrew Scott, o protagonista desse, é o melhor ator da nova temporada). Não importa: seja qual for a sua preferência, é impossível comparar qualquer destes três episódios com aqueles das duas primeiras temporadas, quando a série ainda era produzida pelo Channel 4 inglês. A Netflix assumiu Black Mirror depois disso, e desde então ela vem declinando, temporada a temporada – assim como os longa-metragens de ficção científica do streaming, que ou quase satisfazem mas terminam com um saldo abaixo da promessa inicial (I Am MotherBird BoxAnnihilation) ou são ruins mesmo (Fim do MundoThe SilenceIoExtinção e tantos outros de que já esqueci até o título). O único que me lembro ter realmente valido a pena é Riqueza Tóxica – talvez o mais modesto deles todos.

O problema é que a Netflix e, em menor grau, os demais serviços de streaming não funcionam na base da audiência de cada título, mas do número de assinantes. É preciso abarrotar o catálogo para conquistá-los; e, como eles têm dinheiro para jogar pela janela, acabam produzindo tudo e qualquer coisa. Ideias fracas, roteiros mal cozidos, cópias pálidas de outras produções – parece não haver critério nem crivo para o que ganha financiamento. Enquanto isso, no cinema, a ficção tem rendido joias como Um Lugar SilenciosoAo Cair da NoitePlaneta dos Macacos: A GuerraJogador Nº 1 e Blade Runner 2049 (e também decepções, claro, como Alien: Covenant e Vida). Como no passado, os orçamentos desses filmes excelentes variam entre o tostão e o milionário. O fato é que o terreno é hoje tão fértil para a ficção quanto o foi: a mesma sensação de fim de mundo, de mudança vertiginosa, de disparada rumo a um destino ignorado. Mas, como em tantas outras áreas, é preciso que vigore a lógica do “vale a pena?” para que se produza mais trigo do que palha e não se termine por sufocar em insignificância um gênero que é um dos mais estimulantes do cinema, e também um dos seus melhores laboratórios.

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